Chelsy lembrava de seu dia e percebia que não valia a pena se levantar de onde estava.
Por que tudo dava errado?
Uma característica de Chelsy:
A menina tinha super-poderes.
Ela tentava não lembrar, mas não conseguia esquecer do dia em que seu suposto dom se transformou em uma aberração.
Aconteceu assim:
- Hey, Chelsy! Venha cá!
Ela já tinha escutado os passos da amiga antes que ela chegasse perto. Seus ouvidos captavam também o som do seu coração acelerado. Já tinha escutado também o ritmo da sua respiração e, se prestasse bastante atenção, também podia ouvir o ruído do vento que passava por seus cabelos. Mas ela não se concentrou nisso. Enquanto ela escutava, mais do que o resto dos humanos normais, Deisy corria para encontrá-la.
- Olá Daisy.
- Oi Chel. - ela arfava de cansaço - Como é difícil de te alcançar!
- É que eu gosto de andar rápido. - mais do que o normal, sua mente acrescentou.
- É.
- Tem algo pra me dizer Day?
- Aham. Algo bombástico. - Seu rosto estava cheio de entusiasmo por ter uma fofoca para contar.
- Diga.
- Bem, acho que você não vai embora hoje.
- Como assim?
- Você sabe o Carl? É, o Carl Hyankess.
- Aham, claro. - Carl era simplesmente o amor da vida dela. Só que ninguém, aparentemente, sabia disso.
- Ele quer ficar com você. Lá na barraca. Não vai dizer não, vai?
- Ele? Ficar...comigo? - Ela nem acreditava.
- E por que ele não ficaria com você? Você é linda!
Chelsy era realmente bonita. Seus cabelos eram ondulados até os ombros. Ondas douradas de sol. Seus olhos eram verdes como esmeralda, bem delineados em seu rosto em formato de coração. Talvez esses fossem motivos suficientes para atrair a atenção de Carl.
- Bem, é claro que eu não vou dizer não!
- Isso mesmo, garota! Vai lá.
Ela estava indo até a barraca. Estava tão submersa na certeza de que iria beijá-lo, que poria seus lábios nos dele, e o abraçaria até que seus corpos virassem um só... Estava tão certa disso que nem conseguia ouvir. Foi andando até lá a passos rápidos. Chegou até a praia. Estava parcialmente vazia. As pessoas estavam na fogueira, bem longe da barraca. Quando ela chegou na porta, pode sentir a presença humana ali dentro. Com o corpo em delírio, ela abriu pela porta.
Quando entrou, viu-o ali. Observou com paixão seus cabelos loiros, curtos e arrepiados, e a única coisa que conseguiu fazer foi baixar os olhos até os dele, azuis como o mar ou o céu. Quem tomou a iniciativa foi ele, que andou até ela devagar, e pegou seus cabelos com as mãos. Seus olhos a fixavam, seu rosto ficando cada vez mais perto... mais perto... até que seus lábios estavam juntos. Seu maior sonho e fantasia... ali, realizados. Ela era forte, mas estava fraca. Com os braços, puxou-o mais para si, deixando o desejo explícito. Ele a correspondeu.
Uma característica de Carl Hyankess:
Ele sabia.
Assim que sentiu que ela se entregava, Carl agiu. No bolso da sua calça só havia um de seus tranquilizantes. Uma seringa com um líquido paralisante. Só funcionava com paranormais. Ele só teria uma chance. E se ele estivesse errado? E se Chelsy não fosse o que parecia ser? Só havia um jeito de saber. Com habilidade, ele pegou a seringa e a enfiou no pescoço dela. Ela ficou surpresa, olhou-o sem entender enquanto seu corpo cedia ao veneno. Pouco a pouco suas pálpebras também cediam, até que se fecharam completamente. Chelsy era exatamente o que ele pensava. Agora ele podia usá-la, podia roubar a sua força. Aquela garota não era normal, não era humana. Quem sabe o que ela podia fazer? Quem sabe o que ela podia causar? Não, ele não deixaria que um ser paranormal daqueles andasse por aí, capaz de fazer dos humanos um simples fantoche.
Ele não iria.
Só que ele não sabia do alcance das forças dela.
...
Chelsy acordou em um lugar bonito, a princípio. O pior, era que a sua memória não havia sido tão prejudicada, e voltava aos poucos. Ela lembrava de Carl machucando-a, injetando nela venenos horríveis, de violá-la, e depois que pensou que a tinha matado, jogou-a naquela ponte, em frente ao mar. Por que ela tinha de nascer com aqueles poderes? Por que não podia ser como qualquer outro humano? Não conseguia mais amá-lo, só conseguia sentir o instinto assassino o qual tanto temia. Mas não se mecheu.
Resolveu estagnar-se
Chelsy lembrava de seu dia e percebia que não valia a pena se levantar de onde estava.
Por que tudo dava errado?
Mas uma hora ela se levantaria, e quando isso acontecesse, ela apareceria para Carl, do jeito que estava. Suja de sangue, e com um sorriso maligno nos lábios.
Ela seria o mostro que ele temia. E se vingaria.
Humanos são tão frágeis - pensou ela.
